O Pano do Luaty — Sousa Jamba

Se Luaty Beirão se tivesse sentado numa sala minha, caderno aberto, impaciência no joelho, ar de quem já entrou a discutir com a lição antes mesmo de ela começar, eu tê-lo-ia visto sair com nota alta. Não por obediência ao manual. Por instinto aliado ao cálculo: aquele faro raro que identifica, no corpo pesado das instituições, o ponto exacto onde a pedra começa a soar a oco; e que sabe, em seguida, como bater.

Foi a sede da CNE com uma carta na mão e uma armadilha no bolso.

À primeira vista, parecia apenas mais uma manhã de Luanda dessas em que os edifícios públicos se erguem com uma solenidade um pouco baça, como funcionários antigos que já não sabem muito bem o que guardam, mas continuam a guardar. Havia a porta, os guardas, a compostura, o ritual miúdo das proibições. Havia, dentro do envelope, uma questão séria, de nervo fundo: a interrogação em torno da entrega do apuramento eleitoral à empresa espanhola INDRA — contrato adjudicado sem concurso público, sem escrutínio parlamentar, sem que ninguém tivesse explicado ao país por que razão a soberania aritmética das eleições angolanas havia sido colocada nas mãos de uma sociedade estrangeira. Matéria grave, matéria de Estado, matéria que costuma morrer de asfixia entre siglas, notas técnicas e respostas que chegam já fatigadas antes de serem lidas.

Mas, nessa manhã, a política não entrou pelo papel. Entrou pela bainha.

Barraram-no por causa dos calções.A cena tinha a exacta proporção do absurdo local: a substância à espera na carta, a forma a montar guarda à entrada. Como se a saúde da República dependesse menos do conteúdo do requerimento do que da quantidade de perna autorizada à porta da CNE. E, no entanto, era precisamente aí que a jogada começava a mostrar o desenho. Porque há activistas que imaginam o confronto como embate frontal, peito contra blindagem, palavra contra muro. E há outros que percebem que o muro, sendo simétrico, pode ser desarrumado por uma ferramenta muito menor, desde que ela toque no lugar certo. Um poder pode vir equipado como quem dispara mísseis caros, confiado na sua própria musculatura. Do outro lado, basta às vezes um objecto leve, barato, exacto, para lhe deixar um zumbido na cabeça.

Do saco saiu um pano.

Não houve espalhafato. Não houve discurso. Houve apenas aquele intervalo curto em que um gesto ainda não aconteceu e, no entanto, já começou a trabalhar. Luaty atou o pano à cintura com a calma de quem não improvisa tanto quanto parece. E, de repente, o guarda já não estava diante de um homem que queria entrar. Estava diante de uma pergunta. Se assim, sim, então porquê? Se aquilo basta, o que era afinal a regra? Decoro? Costume? Herança? Reflexo?À volta, o ar mudou.

Mudou como muda uma sala quando alguém, sem levantar a voz, desloca o centro da conversa.

Porque já não se tratava apenas de acesso a um edifício. Tratava-se do embaraço de uma ordem apanhada a explicar o acessório quando o essencial a esperava na mão do lado de fora. E tratava-se também do corpo, que em Angola nunca é só corpo. Numa hora em que tanta gente fala de regresso às raízes, de autenticidade, de reaprender a caber em sinais próprios, aquele pano deixava de ser expediente e passava a ser espelho. Teriam barrado, com a mesma segurança, um homem enrolado numa peça reconhecida como tradicional? Teriam ousado dizer, diante de câmaras e telemóveis, que a dignidade da instituição exigia outra fantasia?

E havia câmaras. Boas câmaras, ou, pelo menos, câmaras guiadas por mão inteligente.

Nada ali tinha o ar frouxo de gravação casual. Não era um vídeo perdido, tremido, apanhado por sorte. Havia enquadramento. Havia sequência. Havia o nervo discreto de quem sabia que a cena não valia apenas pelo que dizia, mas pelo modo como ficaria na retina. Aquilo foi teatro, no sentido mais sério da palavra: entrada, obstáculo, objecto, réplica muda, público. A política contemporânea, aliás, compreendeu há muito o que muitos comentadores ainda fingem não saber: uma ideia, para circular, precisa muitas vezes de encontrar primeiro a forma visível do seu drama.O país viu. E, vendo, falou.

Gente que talvez nunca se tivesse detido no maquinismo sombrio das adjudicações eleitorais, no nome da INDRA, no léxico gasto da administração pública, parou. Comentou. Passou o vídeo adiante. Riu-se. Irritou-se. Discutiu. De repente, um tema que podia ter ficado fechado no circuito estreito dos juristas, dos comunicados e dos gabinetes entrou pela conversa nacional dentro, puxado não por um parecer, mas por um pano atado à cintura de Luaty Beirão.

É aí que a eficácia se torna difícil de negar.

Porque a cena tinha seriedade, mas tinha também humor. Não humor de palhaçada. Humor seco, fino, quase involuntário, esse humor raro que não dissolve a gravidade, antes a torna mais nítida. Havia qualquer coisa de irresistível em ver uma máquina de solenidade tropeçar num pedaço de tecido. Um aparelho armado de regulamentos mínimos e autoridade máxima, desarrumado por um gesto simples, quase doméstico. Como se toda a liturgia do poder pudesse afinal ser puxada por uma ponta e mostrar, por baixo, a costura.

Luaty, além disso, não entra nunca neutro em parte nenhuma, e essa figura pública trabalha com ele antes de ele abrir a boca. Há nele qualquer coisa de contrariante por natureza, como se tivesse escolhido cedo a faixa menos cómoda da estrada.

Filho de um meio em que lhe teria sido possível viver com mais almofada do que aresta, preferiu o incómodo. Podia ter ficado do lado das salas frescas, das protecções discretas, do privilégio consumido sem ruído. Em vez disso, aparece repetidamente onde há fricção, nervo, atrito.

Talvez por isso tanta gente o olhe com uma curiosa mistura de cepticismo, divertimento e respeito: há figuras públicas que apenas ocupam espaço; outras produzem cena. Luaty produz cena.

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