AUSÊNCIA DE UMA ARQUITECTURA DE COMUNICAÇÃO INTEGRADA, DEIXA ICOLO E BENGO SEM DIRECÇÃO

Já diz o velho adágio que “uma imagem vale mais que mil palavras”. O que talvez poucos saibam é que uma imagem fala mais pelo que não mostra do que pelo que revela. Neste sentido, reforça a ideia de que a comunicação não é aquilo que se diz, mas o que o público interpreta. Pois, entre a emissão da mensagem e a sua recepção existe sempre um campo simbólico onde significados são construídos, distorcidos ou amplificados. É nesse espaço que se decide o sucesso ou o fracasso comunicacional de uma instituição.

Por Olívio dos Santos – Consultor de Comunicação Integrada

A ausência de cuidado com a imagem e com a mensagem a ser difundida revela, frequentemente, falhas profundas na cultura organizacional. No contexto contemporâneo, a cultura organizacional deixou de ser um elemento acessório para assumir uma função estratégica no desempenho, na sustentabilidade e na competitividade das instituições.

Mais do que um conjunto de normas, ela traduz a identidade da organização, manifestando-se em valores que orientam o comportamento e influenciam a forma como a instituição se posiciona perante os seus públicos.

Segundo Chiavenato (1991), a cultura organizacional pode ser compreendida como um conjunto de hábitos, normas, costumes, crenças, atitudes e experiências partilhadas pelos membros de uma organização.

Funciona como um guia invisível que condiciona a forma de pensar, sentir e agir, impulsionado decisões, comportamentos e processos comunicacionais. Quando negligenciada, compromete a capacidade de adaptação aos ambientes interno e externo, fragiliza a coerência institucional e dificulta a concretização dos objectivos estratégicos.

Sob este prisma, ao observar a província de Icolo e Bengo, torna-se evidente que as falhas de comunicação não são episódios isolados, mas reflexo de uma fragilidade estrutural. Após a nomeação do governador Auzílio Jacob, tinha afirmado publicamente que governaria com todos, “inclusive com animais”.

A declaração gerou ruído e abriu espaço para múltiplas leituras.
No caso “Zuzu for Africa”, o Governo Provincial do Icolo e Bengo (GPIB) voltou a demonstrar fragilidades ao não recorrer a uma estratégia eficaz de comunicação de crise. Não houve uma acção estruturada capaz de reorientar a narrativa, conter danos reputacionais e recuperar a confiança pública.

Pelo contrário, a ausência de posicionamento estratégico reforçou a percepção de desalinhamento dos princípios de gestão de crise.

Se o GPIB tivesse adoptado os princípios defendidos por Ivy Lee, baseados na transparência, a gestão da narrativa teria seguido outro rumo. Uma abordagem mais clara, directa e responsável teria permitido reduzir o impacto reputacional, preservar a confiança da comunidade e evitar tensões desnecessárias, a fim de salvaguardar a credibilidade institucional.

Actualmente, para quem se desloca de Luanda para a referida província, depara-se com um elemento simbólico que sintetiza, de forma silenciosa, todas essas fragilidades: o painel de boas-vindas “Bem-vindo a Icolo e Bengo”, afixado na ponte do 25, encontra-se completamente degradado.

Onde antes se apresentava uma mensagem clara e institucional, hoje observa-se uma inscrição incompleta, sem voz, sem direcção e reduzida a “Be-vindo a Ic eno”. Este detalhe, aparentemente insignificante, transforma-se num poderoso acto comunicacional involuntário, transmitindo desleixo, ausência de manutenção e, sobretudo, falta de alinhamento entre a imagem que se pretende projectar e a realidade que se apresenta.

O painel institucional não é um elemento decorativo, mas sim um instrumento estratégico de comunicação territorial. Ela constitui um ponto de contacto directo com cidadãos, visitantes e investidores, influenciando percepções, expectativas e julgamentos.

Quando negligenciada, compromete a imagem institucional e reforça narrativas negativas, mesmo sem a emissão de qualquer comunicado oficial.

Neste sentido, a comunicação não pode ser entendida apenas como produção de conteúdos ou gestão de redes sociais. Ela deve ser concebida como um sistema integrado, onde cada elemento — do discurso institucional à prática — contribui para a construção de significado e para a consolidação da reputação.

Um painel de boas-vindas degradado não é apenas um problema de manutenção, mas sim um indicador visível de falhas internas, que vão desde a ausência de processos até à falta de responsabilização.

No plano prático, a correcção deste tipo de falhas exige mais do que intervenções pontuais. Implica a implementação de uma arquitectura de comunicação integrada, alinhada com a cultura organizacional e sustentada por princípios de coerência, consistência e responsabilidade. Exige também a valorização dos detalhes, pois são eles que, muitas vezes, definem a percepção global.

Um painel degradado não é apenas um detalhe, é uma mensagem. Não é desgaste, é fragilidade institucional exposta. Não é ausência de manutenção, é ausência de estratégia. Porque, no fim, a comunicação mais poderosa não é a planeada, mas a que se revela, quando ninguém pretende comunicar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *