Quando a Farda Falha — “Sousa Jamba”

Do meu ponto de vista, a Polícia, neste episódio que nasceu sob holofotes e cresceu à força de indignação pública, tem revelado mais desorientação do que firmeza; e, quando uma instituição fala tarde, fala mal, ou fala com irritação, não esclarece, antes adensa a suspeita: como se a palavra, em vez de água, fosse gasolina.

Há um dado que qualquer autoridade, se quiser sobreviver ao nosso tempo, precisa de compreender: hoje, sobretudo em Angola, as redes sociais não são apenas um corredor por onde a notícia passa, são uma praça onde ela se instala, ganha corpo e ganha testemunhas; e, uma vez aí, vive por conta própria, com a autonomia de uma coisa que já não pede licença a despacho nenhum. Os activistas perceberam isso desde o primeiro instante e fizeram do caso a sua narrativa, com método e inteligência; não se lhes deve censura por isso: o que tomaram não foi um simples episódio, foi um sintoma, e deram-lhe o nome que o país reconhece: o estado da nação, o estado das instituições, a medida do nosso pudor colectivo.

E foi precisamente por essa via, pela corrente veloz das redes, que passámos a ouvir a mãe, e a ouvir o pai, visivelmente abatido; foi por essa via que surgiram amigos e familiares reunidos para proteger uma menor e para impedir que a história se dissolvesse em rotina. Também por essa via vimos no terreno figuras veteranas do activismo, como Laura Macedo e Rosa Conde, numa presença que, entre nós, tem um peso particular: não é espectáculo, é vigilância; é memória do que costuma acontecer quando ninguém está a olhar.

Mas o que tornou o quadro verdadeiramente grave não foi o crescendo natural da indignação; foi a resposta, alegada e documentada em vários momentos, que a Polícia escolheu dar. Terá levado a vítima, uma menor de quinze anos, ao local do alegado crime sem a presença dos pais e sem a presença de um advogado; e isto não é detalhe de rodapé, nem tecnicalidade para juristas de gabinete: é falha séria, porque a lei não trata a vulnerabilidade como ornamento moral, trata-a como obrigação concreta.

Depois vieram as imagens: viu-se a rapariga dentro da viatura policial, viu-se o carro a arrancar com pressa, quase a fugir, precisamente quando a imprensa e as câmaras estavam reunidas; e, num ambiente já saturado de desconfiança, aquele gesto foi lido como ocultação. A partir daí, a especulação fez o que a especulação sempre faz quando a transparência falta: correu. Estarão a esconder a menor para a “preparar”? Estarão a condicioná-la? Estarão a empurrá-la para outra versão dos factos, uma versão que alivie o agressor? A ideia de que a Polícia pudesse estar a “treinar” a vítima para desdizer o que foi visto é moralmente nauseante; e, no entanto, foi essa náusea que se espalhou: porque os gestos, em vez de limpos, pareceram clandestinos.Como se isto não bastasse, houve ainda o momento que, pela sua crueza, fica na retina do país: diante das câmaras, um comandante da esquadra de Viana terá afirmado que a menor não tinha sido violada, que não tinha sido agredida, que estaria a inventar.

Ora o registo existia, o país viu, o mundo viu; negar o que está à vista não é defesa, é afronta. E é, além disso, um gesto velho e reconhecível, de manual machista: culpar a vítima quando falta pensamento, quando falta empatia, quando falta estratégia.O que a Polícia deveria ter feito era simples: desde o primeiro minuto, uma mensagem clara, humana e firme de solidariedade com a menor e a família; procedimentos irrepreensíveis, sem atalhos, sem encenações; e alguém capaz de medir as palavras como quem sabe que cada frase pesa. Em certos momentos, teria até sido sensato dar visibilidade a agentes mulheres: não como adorno, mas como sinal de outra cultura possível, de uma corporação que também tem mães, irmãs, filhas.Em vez disso, o que se viu foi hostilidade a activistas e pressão sobre jornalistas: como se a intimidação pudesse substituir a credibilidade; foi o punho onde se exigia compostura; foi a rigidez onde uma atitude mais compassiva teria protegido a vítima, desarmado a praça e poupado a própria instituição ao ridículo de negar o inegável.

E eu digo, com a frieza triste de quem não se ilude, que aquilo que estamos a ver é uma espécie de bancarrota moral que atravessa a sociedade inteira: a Polícia e as restantes instituições. Convém afirmá-lo sem cinismo: dentro da Polícia há muitos operacionais bem-intencionados, dignos, gente admirável, que faz um trabalho duro e pelo qual o país deveria sentir gratidão verdadeira. Mas é precisamente porque existe essa gente boa que estes casos se tornam ainda mais intoleráveis: porque um punhado de homens, quando comete crimes, arrasta consigo o nome de todos.

O que fortalece a Polícia, hoje, não é a força bruta, nem o grito, nem a ameaça; é a transparência, a obediência escrupulosa à lei, a franqueza no reconhecimento do que correu mal e a clareza sobre o que será feito para apurar responsabilidades. Porque estamos diante de um público cada vez mais sofisticado, mais atento, menos impressionável perante hierarquias; e, neste novo país das câmaras e das redes, a credibilidade não se impõe: conquista-se, com verdade verificável, com procedimentos limpos e com humanidade disciplinada.

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