No Sambizanga, bairro de Nagrelha, Mantorras ou William Carvalho, Dádiva pousa na rua cor-de-rosa, numa Luanda dos contrastes, onde a pobreza se esconde atrás dos arranha-céus e se mostra, sem vergonha, nos musseques.
Lusa
Por ruas esburacadas e enlameadas, crianças jogam à bola, barbeiros e entrançadeiras esmeram-se, senhoras vendem ‘popcorns’ que saltam brancas na vitrina de carrinhos, crianças ensaiam junto ao mural de Nagrelha, enquanto alguém filma aparentemente um documentário sobre o rei maior do kuduro.
E Dádiva chama para uma foto, sentada na cadeira no terraço de um café frente ao mural do bairro cor-de-rosa. Torna-se diva e cativa a câmara. Ali onde a miséria é a de quem desgoverna e a alegria esconde a luta de uma vida sofrida.
“A vida está mal”, diz, com um estalido e olhos tristes uma mamã, bacia das vendas na cabeça.Acabou o Roque Santeiro (maior mercado a céu aberto de África, encerrado em 2010), mas o Sambizanga ficou, com as suas casotas de lata misturadas com o que resta das casas de tijolo, onde quase tudo se vende nas ruas.
O mural do bairro cor-de-rosa, já gasto, exibe ainda os rostos dos líderes Agostinho Neto, o primeiro Presidente, e Jonas Savimbi, líder histórico da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), Eduardo dos Santos (ex-Presidente) e João Lourenço, actual chefe de Estado, entre outros, ao lado de figuras históricas como Nelson Mandela e Che Guevara.
Ali onde Dádiva se oferece à câmara, em poses de revista, sozinha ou com os meninos daquela rua, que mostram sorrisos e são a esperança de um país que tarda em cumprir o sonho dos que lutaram pelo direito de escolher o seu destino e uma vida melhor.
Na parede de uma outra casa de uma outra rua, Bangão pousa ao lado de Bonga, referência do semba, e ouve-se música — sempre a música — saída de um bar em frente.
No bairro onde Mantorras se formou, uma casa de primeiro andar, desgastada e já sem cor, é mostrada com orgulho. Um filho do Sambizanga que chutou a bola para a frente e partiu.Sentados em bancos corridos na casa em frente, primas e primos reivindicam o parentesco com o futebolista que fez história.
Alguém lembra que foi também aqui que William Carvalho mostrou os seus dotes para o futebol.Pedaços de rua sem poças convertem-se em campos de bola, onde meninos ensaiam jogadas de campeões, com balizas feitas de pneus.
Num pequeno pátio, outro grupo dribla a bola e finta os fios que atrapalham a tabela para marcar cesto.
Uma porta aberta mostra um altar enfeitado com um pano africano. Um grupo conversa à porta. É um templo católico entre outros, de outras confissões religiosas, que se foram instalando no bairro.
Uma senhora corta o cabelo, outras entrançam, com extensões que saíram de lojas improvisadas ou de garrafas de plástico nas mãos de meninas.Um barbeiro à porta de um bar aprimora o corte de um cavalheiro do Sambizanga.
O frenesim do bairro passa a estrada para o Mercado de São Paulo, a abarrotar de bancas de chinelos e quinquilharias, jinguba, feijão, carne e peixe (sem frio), mulheres a fritar bolinhos ou batata-doce em óleo de mil fervuras aquecido em fogões improvisados a carvão.
E o mercado estende-se para a rua, com lixo a tornear os contentores, por cima da água escura e mal-cheirosa. Um homem vasculha o contentor. Uma mota passa levando em cima pai, mãe e bebé.
Daqui saem ‘zungueiras’ (vendedoras de rua) para as ruas da cidade, as mesmas que nos dias da visita de Leão XIV foram varridas, como o lixo: “Estamos a sofrer, tia”.
Sambizanga, Rangel, Cazenga mostram a Luanda dos pequenos negócios, dos ócios, de quem luta por se manter vivo, mesmo se a luz falta na maior parte dos dias e a água canalizada só chega a alguns.
Dádiva, de pele branca por falta de melanina, olhar matreiro, paira suave sobre a desgraça. Tal como este povo, que em cada dia se reinventa e da miséria faz acontecer, respondendo com um sorriso e uma frase certeira à indiferença dos que se escondem atrás dos vidros fumados e vivem uma vida de faz de conta: “Temos pouco, mas é nosso”.

