Cultura tradicional angolana “está viva” e inspira jovens — Rei chokwe

Vestido a rigor e exibindo os símbolos do poder, o rei das Lundas (Leste de Angola), Mwatshissengue Wa Tembo, invoca a sua juventude e assegura: “a nossa cultura agora está viva”

.“Hoje há jovens no poder tradicional e a influenciar outros a inspirarem-se nos nossos contos, nossos rituais, nossa tradição, nossa cultura”, assegura, contando que os reinos angolanos se uniram para defenderem o resgate, a preservação, a valorização e a divulgação da identidade cultural tradicional.

Mwathissengue recebeu a Lusa numa casa no bairro da missão, em Saurimo, capital da Lunda Sul, fazendo questão de usar as cadeiras tradicionais, os três símbolos do poder chokwe — o mufuka (espanta-moscas) e dois bastões (uma bengala e um cetro de madeira esculpidos) – e o tradicional traje do rei.

De nome próprio José Estêvão, Mwatchissengue Wa Tembo recorda que, no tempo colonial, a cultura tradicional angolana quase desapareceu: “aquilo que as autoridades tradicionais faziam era visto como coisa do outro mundo, passava por feitiçaria, bruxaria e isso levava as pessoas a terem certo receio”.

“Mas, com o andar do tempo, começaram a perceber que estavam a perder a sua essência, sua origem” e, agora, “a juventude já começa a interessar-se na investigação cultural dos seus povos”, conta.

Neste reavivar de culturas ancestrais, os reis angolanos decidiram criar um Conselho Nacional do Poder Tradicional, o que tem permitido que se desloquem aos vários reinos e troquem experiências, procurando chegar aos jovens.

“Muitos [jovens] estavam mais interessados na globalização e esqueciam, mas hoje estão mais interessados nas duas coisas”, assegura, dando o exemplo dos 160 jovens de 15 províncias do país que participaram numa Jornada de Teatro em Saurimo e que foram conhecer o seu reino.

O conselho, criado em 2022, tem trabalhado em torno de quatro eixos – o resgate, a preservação, a valorização e a divulgação da identidade cultural angolana -, mas também quer esclarecer “qual é o papel da autoridade tradicional numa sociedade”.

“Há muita autoridade tradicional que não sabe qual é o seu papel, pensa que ir bater à porta do administrador, receber um pacote de arroz, um garrafão de vinho, tem o problema resolvido. Não, a autoridade tradicional é o representante do povo, é a pessoa (…) que deve velar pelo bem-estar” da comunidade, declara.

Com a obrigação “de ver o que falta dentro de uma comunidade e ir junto das autoridades (…) para solucionarem”, o rei ou o soba tem de estar “na linha da frente” e “saber resolver os problemas”.

Como exemplo, Mwatshissengue aponta a feitiçaria, mal denunciado pelo Papa Leão XIV na breve visita a Saurimo na passada segunda-feira, e alerta que só “um esforço conjunto” e a ação da Justiça pode travar um fenómeno que, assegura, não existia quando a autoridade tradicional punia e era responsável pela formação das crianças.

“No passado, no histórico desta região, nós nunca tivemos situações de delinquência, porque a própria tradição em si já educava o homem como viver na sociedade”, salienta.

Na tradição chokwe, há uma escola para meninas e outra para rapazes, mas a alteração do calendário escolar em Angola colocou em risco esta formação, que procura agora “voltar à normalidade”, salienta.

Há também lugar para os mais velhos — cujo abandono pelas famílias foi denunciado por Leão XIV -, que são conselheiros e “guardiães da cultura, das tradições”, diz, realçando a importância dos contos, das histórias, que levam a uma reflexão.

“Precisamos recuperar tudo aquilo que nos faz bem, os ensinamentos dos nossos ancestrais, porque eles não viveram os problemas que estamos a viver”, salienta.

“Se não seguirmos isto, a nossa juventude vai-se perder”, adverte.

Questionado sobre se é ouvido pelas autoridades, responde: “ouvir, ouvem, [mas] devem materializar [a resposta] às inquietações das comunidades”.

Segundo Mwatshissengue, a última década trouxe melhorias, com as empresas que exploram os recursos minerais da região, e que “no passado nada faziam”, a sentirem que “devem ouvir as comunidades”, muito fruto do debate que tem envolvido, nomeadamente, as autoridades tradicionais, as Igrejas, sobretudo a católica, e as explorações.

“Visitas como a do Papa, que vêm trazer mensagens de paz, de reconciliação, vêm trazer ensinamentos que precisamos muito.

Sempre defendo o diálogo”, uma postura que, salienta, está presente na formação desde criança na cultura chokwe.

Com a Igreja católica as relações “são boas”, refere, salientando que existe uma representação católica na sua ombala (aldeia), Itengo, situada a 50 quilómetros de Saurimo.

Foi também o arcebispo de Saurimo, D. Manuel Imbamba, que o encorajou a aceitar ser entronizado rei: “ele me chamou e me disse ‘você, como mais jovem, tens que cumprir essa missão, também para desmistificar esse tabu que a autoridade tradicional é feiticismo, [tens] que ser o exemplo para os demais seguirem”.

José Estêvão trabalhava no departamento de administração e finanças do Ministério do Interior na província da Huíla, onde estudou no Instituto Superior de Ciências da Educação, quando foi chamado ao Itengo pelo então rei, Ndumba Alberto, seu tio, que lhe anunciou ter sido o sobrinho escolhido para lhe suceder.

Hesitou, mas acabou por ser entronizado em 2016, depois da morte do antecessor, um cargo que tem sido reivindicado por outro pretendente, que Mwatshissengue assegura ter sido nomeado pelo anterior governador provincial, não ser da linhagem do antigo rei, mas sim de um antigo regedor (nomeado pelo poder colonial) e nunca ter aceitado cumprir o ritual obrigatório.

“[Eu] passei por um ritual, isso é obrigatório, quando vais ao encontro da pessoa que está no poder, temos o símbolo do poder, que é o lukano [pulseira mágica], é posto num prato com um barro branco, vai a este santuário e evoca o nome dos seus antepassados que fazem parte dessa linhagem. Depois de sair dali, é morto um animal, confeciona-se e come-se”, descreve, frisando: “linhagem é linhagem e nossos ancestrais não dormem”.

Além disso, “um rei para ser rei, um soba para ser soba, tem que ter território”, remata.

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