DEVOLVAM-NOS O CEFOJOR

Vinho velho é bom. Gostoso. Desperta o paladar. Põe-nos a flutuar. Néctar dos deuses. Basta tomá-lo com moderação. Diferente da zurrapa. Um jornalista com décadas de experiência é como o vinho velho. Quanto mais antigo, maior a responsabilidade. Maior o compromisso com a verdade.

Jorge Eurico – Jornalista

Um jornalista de barba rija é um incómodo. Uma pedra no sapato dos políticos. Chato. Muito chato. Um dos mais antigos jornalistas angolano em funções é Luciano Rocha. Mantém actividade regular. É profundo. É sério e rigoroso. Domina os dossiês da política angolana como poucos.

Angola teve um dos jornalismos mais dinâmicos da lusofonia antes de 11 de Novembro de 1975. Isso é inegável. Depois dos Acordos de Bicesse, abriu-se uma fresta de liberdade. Uma fresta que se estendeu, com avanços e recuos, de 1991 a 2017. Nunca foi plena. Mas existiu. Em 2017, o Executivo decidiu fechar essa janela.

Arrasou redacções. Esvaziou-as por dentro. Jornalistas com menos de 65 anos, ainda no auge da carreira, foram afastados. Muitos ficaram pelo caminho. Doença. Álcool. Tédio. Depressão.

Os jornalistas mais experientes e de maior idade começaram a ser afastados das redacções. Silenciosamente empurrados para fora. Como se se tratasse de uma depuração discreta.

Uma espécie de enciclopédia soviética aplicada ao Jornalismo: Retirar páginas inteiras da memória viva das redacções. Apagar experiências. Substituir autoridade por silêncio. Obediência cega. Jornalista é jornalista até morrer.

O Jornalismo angolano regressou ao modelo dos “rapazes da Informação”, como no período entre 1975 e 1991. Muita propaganda. Pouca autonomia. Pouca espinha crítica. Honrosa excepção para o Jornalismo desportivo, que manteve, em vários momentos, maior liberdade e criatividade editorial. Hoje, muitas redacções estão sem vozes experientes. Sem autoridade. Cheias de jovens sem prática. Sem lastro.

Demasiadas vezes dominados por políticos. Comandados por controlo remoto político.

Transformados em relações públicas do Executivo.

A Rádio Escola deu lugar ao CEFOJOR. Pertencia à Rádio Nacional de Angola (RNA). Era ali que os jornalistas faziam reciclagens. Era ali que se formavam profissionais. Confiar a direcção do CEFOJOR a quem não percebe nada do métier é um insulto do Executivo à classe jornalística angolana. Um desrespeito. Um sinal de desvalorização do saber profissional. Desprezo pela própria história do Jornalismo angolano.

O CEFOJOR deve voltar a ser a academia do Jornalismo angolano. Um espaço de transmissão de saber. Dos mais velhos para os mais novos. Com exigência. Com método. Com liberdade. Há muitos e bons jornalistas formados.

Podem honrar o objecto social do CEFOJOR. Na direcção. E na formação. Seria uma forma de valorizar quem ainda tem muito para dar. E de reforçar o rendimento de quem está na reforma. Devolvam o CEFOJOR aos jornalistas.

A César o que é de César. Aos jornalistas, o que é dos jornalistas. Ponto final.

O poder político não deve transformar o CEFOJOR num espaço de acomodação. Nem num “job for the boys”.

Há jornalistas em casa. Com energia. Com saber. Com memória. O jornalista só deixa de trabalhar quando deixa de pensar. Ou quando a saúde falha. De resto, quanto mais velho for o jornalista, melhor para a qualidade da democracia. Jornalistas angolanos, uni-vos!

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