Entre a Fome e a Saúde Pública: Uma Reflexão Sociológica sobre o consumo de Carne de Gato em Angola

A crescente preocupação em torno do consumo de carne de Gato por algumas famílias em Angola deve ser analisada para além da simples questão alimentar.

Paterson Simão – Sociólogo

Sociologicamente, este fenómeno pode ser compreendido como uma manifestação das desigualdades sociais, da pobreza, da insegurança alimentar e das estratégias de sobrevivência desenvolvidas por famílias que enfrentam dificuldades para garantir uma alimentação diária adequada.

Quando uma família chega ao ponto de consumir determinados animais não necessariamente por preferência cultural, mas porque não possui recursos financeiros para adquirir outras fontes de proteína, estamos perante um problema social que exige a atenção do Estado e da sociedade.

A fome pode levar os indivíduos a adaptar os seus hábitos alimentares como forma de sobrevivência.

Entretanto, existe também uma dimensão de saúde pública que não pode ser ignorada. O consumo de carne proveniente de animais sem controlo veterinário e sem condições adequadas de abate, conservação e preparação pode representar riscos para a população. Por isso, a discussão não deve limitar-se a condenar quem consome, mas procurar compreender por que razão determinadas famílias chegaram a essa condição.

Do ponto de vista sociológico, é importante evitar uma abordagem moralista que responsabilize exclusivamente o cidadão. Se uma pessoa escolhe uma determinada fonte de alimento porque é aquilo que consegue obter para alimentar os seus filhos, precisamos questionar as estruturas sociais e económicas que condicionam essa escolha.

A questão central, portanto, não deve ser apenas: “Por que as pessoas estão a comer gato?” Mas também: “Que condições sociais e económicas estão a levar algumas famílias a procurar alimentos dessa natureza?”A resposta passa necessariamente pela análise do desemprego, baixos rendimentos, aumento do custo dos alimentos, desigualdade social, precariedade habitacional e insuficiência das políticas de proteção social.

O combate a este fenómeno não deve ser feito apenas através da proibição ou repressão. É necessário fortalecer as políticas públicas de segurança alimentar, assistência social, emprego, rendimento familiar e acesso a alimentos nutritivos a preços acessíveis, ao mesmo tempo que se reforça a fiscalização sanitária e veterinária.

Uma sociedade que pretende proteger os seus cidadãos precisa garantir que ninguém seja obrigado a escolher entre passar fome e consumir alimentos potencialmente perigosos para a saúde.

Assim, o consumo de carne de gato, quando associado à pobreza e à insegurança alimentar, deve ser entendido como um sintoma de um problema social mais profundo. A verdadeira questão sociológica está nas condições que produzem essa realidade.

Não devemos apenas julgar aquilo que as pessoas comem; devemos compreender as condições sociais que as obrigam a fazer determinadas escolhas.Sociólogo: Paterson Simão

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