Guerra no Supremo Tribunal ofusca presidenciais no Brasil

Conflito entre juízes tem concentrado o interesse mediático e popular, desviando as atenções da campanha eleitoral.

A pouco mais de duas semanas da primeira volta das eleições gerais e presidenciais brasileiras de 4 de outubro, com os dois principais candidatos, Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, empatados nas sondagens, a disputa eleitoral está longe de ser o principal tema na agenda política e mediática no Brasil, ofuscada pela feroz crise entre juízes do Supremo Tribunal Federal (STF). Os meios de comunicação social e os cidadãos nas ruas concentram as atenções nos embates diários e nada polidos entre os magistrados do tribunal, e Lula e Flávio também já aderiram ao tema, que pode vir a mudar o rumo de uma eleição que parecia encaminhar-se para a reeleição tranquila do atual presidente.

Fortemente ligado ao juiz Alexandre de Moraes, que já classificou como pilar para governar e fintar a oposição de parte do Congresso, Lula foi atingido em cheio pelas suspeitas de que o aliado tinha uma relação promíscua com o banqueiro Daniel Vorcaro, preso por corrupção e burlas, e cuja advogada era a mulher do juiz, Viviane de Moraes. Tentando livrar-se da incómoda ligação, que já o fez perder a larga vantagem que tinha sobre Flávio, Lula passou a defender mudanças no STF e a criticar Moraes, afirmando, sem o citar, que quem quer estar no poder judiciário não pode ter mulher, pai ou filhos a advogar nem sonhar em ficar rico.

Flávio Bolsonaro, ele próprio acusado de ligação a Vorcaro, saiu-se melhor e está a usar na campanha a ligação entre o chefe de Estado e o juiz para faturar votos. O filho de Jair Bolsonaro disparou ontem que a ‘tropa de choque’ do presidente no STF, aludindo aos juizes Flávio Dino, ex-ministro da Justiça de Lula, Cristiano Zanin, seu ex-advogado, e Gilmar Mendes, aliado de muitos anos, impediram que Moraes fosse julgado e iniciou uma propaganda na televisão com o mote “Votar em Lula é votar em Moraes”, para tentar beneficiar da enorme antipatia popular contra o juiz.

Lula, que há dois meses tinha oito pontos de vantagem sobre Flávio, surge nas sondagens mais recentes empatado ou até mesmo atrás do adversário numa provável segunda volta. No Datafolha, Lula tem 46% contra 44% de Flávio, o que configura empate técnico dentro da margem de erro, enquanto o Poderdata mostra Flávio com 46% e Lula com 45%, e a Quaest atribui 42% a Flávio e 40% a Lula.

Julgamento de Moraes adiado 

O julgamento do juiz Alexandre de Mores no Supremo Tribunal Federal do Brasil (STF) por suspeita de ligações indevidas ao banqueiro Daniel Vorcaro, preso por corrupção e fraude, foi suspenso na terça-feira à noite depois de um dos magistrados, Flávio Dino, aliado de Moraes, ter pedido mais tempo para analisar o processo, no final de uma sessão tumultuosa, marcada por ataques entre juízes e desafios à autoridade do presidente do STF, Edson Fachim.

Pelas regras do tribunal, Dino poderá analisar o processo por até 90 dias, período durante o qual o julgamento continuará suspenso. Mas, no que já foi aventado poder ser uma estratégia dos aliados de Moraes, outros magistrados próximos dele poderão igualmente pedir mais tempo para analisar o processo a seguir a esse prazo inicial de 90 dias, empurrando a definição do julgamento para o próximo ano, após as eleições gerais e presidenciais de 4 de outubro, esperando que articulações e acordos internos possam encontrar uma saída honrosa para o colega.

A suspensão do julgamento de Alexandre de Moraes pode fazer adiar também o julgamento de outro juiz, André Mendonça, que há duas semanas deflagrou a maior crise dos 135 anos do STF ao tornar público um relatório confidencial da Polícia Federal com 52 mensagens trocadas entre Vorcaro e Moraes. O julgamento de Mendonça foi marcado por Fachim para o próximo dia 23, mas ontem fontes do STF avançavam que o presidente do tribunal poderia adiar também este processo até que a ação contra Alexandre de Moraes seja concluída.

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