Organizações da sociedade civil pedem ao Papa uma mensagem de amor, de paz e de “apelo ao combate à corrupção”. Esperam também uma visita às famílias desalojadas pelas cheias.
Organizações da sociedade civil angolana pediram esta sexta-feira que o Papa apresente ao país mensagens de aproximação entre governantes e governados, de boa governação, combate à corrupção e que Leão XIV visite os sinistrados da província de Benguela.
“Espera-se do Papa uma mensagem de amor, de paz, de justiça e bem-estar, uma mensagem de conforto, de unidade, uma mensagem que vem apelar a todos nós a necessidade de cada vez mais estarmos reconciliados, de cada vez mais trabalharmos para o bem da nossa comunidade“, disse esta sexta-feira o presidente da Associação Mãos Livres, Guilherme Neves.
À Lusa, no âmbito da visita de Leão XIV a Angola, que se inicia no sábado e decorre até 21 de abril, o responsável augurou igualmente que o Papa traga mensagens que venham “reforçar e melhorar o diálogo e garantir maior aproximação entre governantes e governados”.
Esperam ainda que o líder da Igreja Católica visite as famílias desalojadas pelas cheias em Benguela.
Mas, também, observou, uma mensagem que foque as questões da boa governação, a transparência na gestão da coisa pública, “que possa, então, concorrer para o bem-estar, uma mensagem de apelo ao combate à corrupção“.
“Numa altura em que boa parte dos africanos, em particular Angola, vivemos na pobreza, não porque não existem recursos para o efeito, mas muitas vezes tem a ver com as más opções políticas na distribuição da renda nacional”, referiu o líder as Mãos Livres, ONG angolana de defesa dos direitos humanos.
Também o director-executivo da Associação Omunga — organização não governamental de promoção dos direitos humanos — João Malavindele saudou a visita de Leão XIV, considerando tratar-se de “uma honra” o país receber pela terceira vez um Papa.
Enalteceu a “boa relação institucional” entre o Estado angolano e o Vaticano, realçando, que o país ainda enfrenta “grandes problemas” nos domínios sociais e económicos.
“É bem verdade que o Papa não vem para resolver estes problemas, mas há uma questão que é a bandeira da Igreja Católica: a paz, a reconciliação. E nesse quesito temos ainda muito caminho a percorrer relativamente à questão da reconciliação nacional”, notou.
Malavindele espera mesmo que o Papa venha “confortar” os dirigentes angolanos: “Os nossos atores políticos e também os cidadãos, em geral, relativamente a esse desejo [de reconciliação] que há muito nós como angolanos desejamos”.
No sábado, após a sua chegada no Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro, em Luanda, o Papa vai manter encontros com o Presidente angolano, João Lourenço, com a sociedade civil, diplomatas e políticos e depois com o clero angolano na Nunciatura Apostólica.
O Sumo Pontífice preside no domingo de manhã uma missa campal no Kilamba (Luanda), uma celebração eucarística ao fim da tarde na Vila da Muxima (Icolo e Bengo) e na segunda-feira viaja para Saurimo (Lunda Sul), onde vai presidir uma missa e visitar um lar de idosos, conforme a agenda oficial.
O director-executivo da Omunga, ONG com sede em Benguela, defendeu igualmente a “alteração” da agenda papal para que este pudesse visitar aquela província — afectada pelas cheias de domingo que causaram 19 mortos, alguns desaparecidos e milhares de desalojados — e levar o seu conforto às famílias sinistradas.
“Gostaríamos também que se refizesse a agenda do Santo Padre para uma visita de conforto a essas famílias (…) para deixar também uma mensagem de esperança relativamente à situação que vivem neste momento”, indicou.
Cheias na província angolana de Benguela foram provocadas pelo transbordo do rio Cavaco, após fortes precipitações do fim de semana passado.
A visita do Papa Leão XIV a Angola é aguardada com “alegria e júbilo”, disse à agência Lusa o presidente da Associação Justiça, Paz e Democracia (AJPD), Serra Bango que deseja ouvir mensagens de paz, amor, reconciliação.
“E, sobretudo, de esperança que fortaleça a Igreja e reconforte o povo angolano, isto é o que se espera. Todavia, há aspetos sociais e económicos de Angola que provavelmente o Santo Padre deverá já ter um conhecimento prévio que devem ser rebatidas, que têm que ver com fatores que estrangulam, manietem e violem o princípio da dignidade da pessoa humana”, descreveu.
Para o jurista angolano e responsável da AJPD, para além de falar da paz e da reconciliação, o líder da Igreja Católica deve abordar igualmente questões relacionadas ao “respeito da pessoa humana, do respeito da propriedade privada e pública (…) distribuição equitativa da riqueza e do combate à corrupção”.
